O sonho de Luna
Na encantadora Serra Clara, uma cidadezinha que parecia isolada do resto do mundo por suas montanhas majestosas e suas ruas de paralelepípedos, vivia Gabriel, um menino de olhar curioso e imaginação vívida. Desde cedo, ele sentia como se vivesse duas vidas: uma visível, que todos conheciam, e outra escondida, que apenas ele entendia. Quando se olhava no espelho, era Luna quem ele via, embora o mundo insistisse em chamá-lo de Gabriel.
Aos 10 anos, Luna, ainda chamada pelo seu nome de batismo, passava horas desenhando vestidos coloridos e criando histórias onde as princesas eram as heroínas. Ela tinha um caderno secreto, que chamava de "Meu Reino", onde registrava seus sonhos, anseios e medos. Mais do que um refúgio, aquele caderno era seu verdadeiro lar.
Mas a realidade, muitas vezes, era dura. Na escola, Luna enfrentava olhares inquisidores e brincadeiras que a faziam sentir-se ainda mais deslocada. A cada risada zombeteira, ela se perguntava se haveria um lugar no mundo onde pudesse existir sem máscaras. No entanto, a professora Clara, sempre atenta e gentil, era uma luz em meio à escuridão. Um dia, ao notar a tristeza no olhar de Luna, disse: "Sabe, às vezes as pessoas têm dificuldade de aceitar o que não entendem. Mas o mundo precisa de pessoas que mostrem novas cores. E acho que você é uma dessas pessoas."
Essas palavras plantaram uma semente de coragem em Luna. Ainda assim, o caminho era longo. Foi numa noite de tempestade, enquanto raios cortavam o céu, que Luna decidiu abrir seu coração. Escreveu uma carta para seus pais, com cada palavra carregada de emoção:
*"Querida mamãe e papai, sei que pode ser confuso, mas quero que saibam quem eu sou de verdade. Meu nome é Luna, e esse é quem eu sempre fui. Espero que possam me amar pelo que sou, porque eu amo vocês com todo meu coração."*
Na manhã seguinte, a carta estava sobre a mesa da cozinha. Durante o dia, Luna mal conseguia se concentrar. Quando voltou para casa, encontrou seus pais esperando por ela. Sua mãe, com lágrimas nos olhos, disse: "Filha, talvez demoremos um pouco para entender tudo, mas nunca duvide do nosso amor por você."
Seu pai, normalmente reservado, a abraçou com força e sussurrou: "Estamos aqui para você, Luna." Com o apoio da família, Luna começou a se apresentar ao mundo como quem ela realmente era. Não foi fácil. Algumas pessoas na cidade, presas a preconceitos, hesitaram em aceitar sua identidade. No entanto, Luna encontrou aliados inesperados, como Dona Cida, a costureira local, que a ajudou a confeccionar os vestidos que ela sempre sonhara em usar. "Você tem um brilho, Luna. E o mundo precisa disso," dizia Cida.
O impacto de Luna foi além de sua própria história. Inspirada por sua coragem, a escola de Serra Clara passou a organizar palestras sobre diversidade e inclusão. Outras crianças que se sentiam diferentes encontraram em Luna uma amiga e defensora. Aos poucos, a cidade, antes tão rígida em suas tradições, se abriu para as novas cores e possibilidades que Luna trouxe.
Luna cresceu com um senso de propósito: ajudar outras pessoas a se sentirem vistas e amadas. Tornou-se uma artista renomada, cujas obras refletiam não apenas sua jornada pessoal, mas também a beleza de ser autêntico. E, enquanto caminhava pelas ruas de Serra Clara, agora mais vibrante e acolhedora, sabia que o mundo era um lugar melhor porque ela teve coragem de ser quem sempre foi.
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