O VELHO VIOLÃO
Era uma vez, em uma vila cercada por montanhas e bosques, um velho
violão vivia guardado em um pequeno sótão. Durante décadas, ele tinha sido o
fiel companheiro de um músico chamado Rafael. Juntos, viajaram por cidades
distantes, tocaram em festas, praças e serenatas sob a luz das estrelas. Mas
com o tempo, Rafael envelheceu e suas mãos já não podiam mais dedilhar as
cordas como antes. O violão foi deixado de lado, e, com o passar dos anos, suas
cordas enferrujaram e seu som foi se perdendo.
O violão começou a se sentir invisível, mudo, como se sua história
e sua música tivessem sido esquecidas. Ele sonhava em voltar a tocar, mas
ninguém parecia se lembrar dele. Até que, um dia, uma garotinha chamada Clara
subiu ao sótão em busca de algo curioso. Entre caixas de poeira e objetos
antigos, ela encontrou o velho violão. Seus olhos brilharam de entusiasmo ao
segurá-lo, mesmo percebendo que ele já não emitia som.
Determinada a trazer o violão de volta à vida, Clara pediu a um
luthier do vilarejo que o restaurasse. O homem, ao examinar o instrumento,
disse que ele precisaria de tempo e dedicação. Clara não desistiu. Ela passou
dias ajudando a limpar o corpo do violão, trocar suas cordas e lustrar sua
madeira. Durante todo o processo, Clara contou histórias, como se conversasse
com o violão, acreditando que ele poderia ouvi-la.
Quando o violão finalmente estava pronto, Clara tentou tocá-lo, mas
as primeiras notas ainda saíam fracas e tímidas. Era como se o violão tivesse
medo de se expressar novamente. Então, Clara começou a cantar suavemente
enquanto dedilhava as cordas. A música não era perfeita, mas era cheia de
emoção. Aos poucos, o violão começou a responder. Suas notas ganhavam força, e
sua melodia ecoava novamente pela vila.
Com o tempo, Clara e o violão se tornaram inseparáveis. Eles
começaram a tocar em praças, nas feiras e até mesmo em festas. A música que
saía daquele velho violão não era apenas som; era cheia de alma, carregada das
memórias de Rafael e agora das esperanças de Clara. As pessoas da vila,
encantadas, diziam que nunca haviam ouvido algo tão bonito.
Rafael havia vivido anos em silêncio, distante da música que um dia
havia sido o centro de sua vida. Mas, em uma tarde tranquila, enquanto se
recuperava de seus dias solitários, ele ouviu falar de uma jovem talentosa
chamada Clara que tocava um violão antigo, trazendo vida a melodias
encantadoras. A curiosidade tomou conta dele, e algo dentro de seu coração o
impulsionou a viajar até a vila onde Clara vivia.
Chegando lá, Rafael seguiu as notas que pareciam flutuar pelo ar.
Elas o levaram até a praça, onde Clara estava sentada sob uma árvore,
dedilhando o violão que Rafael imediatamente reconheceu. Ele ficou parado por
um momento, observando-a com olhos cheios de emoção. Para ele, aquele violão
não era apenas um instrumento; era uma extensão de suas próprias memórias, de
suas jornadas e das histórias que haviam sido gravadas em cada corda.
Com passos hesitantes, Rafael se aproximou. Clara, ao vê-lo, parou
de tocar por um instante, percebendo algo especial na presença daquele senhor.
Ele se apresentou, e, juntos, começaram a conversar sobre o violão e sua
história. Rafael contou sobre suas viagens, sobre os lugares que visitou e as
pessoas que conheceu. Clara escutava atentamente, encantada com as memórias que
o instrumento carregava.
Então, Rafael pediu para tocar o violão. Suas mãos trêmulas
seguraram o instrumento com reverência, e ele tocou uma melodia antiga, uma que
ele havia composto anos atrás. As notas não eram perfeitas, mas estavam cheias
de emoção. Clara acompanhou com sua voz, criando uma harmonia que parecia unir
passado e presente em um único momento.
A praça se encheu de pessoas, todas atraídas pela música. Era como
se a vila inteira estivesse testemunhando um encontro não apenas entre duas
gerações, mas entre dois espíritos que compartilhavam um amor incondicional
pela música. Rafael, ao terminar de tocar, olhou para Clara e disse:
-"Esse
violão encontrou sua voz novamente através de você. Obrigado por trazer de
volta a alma que eu pensei ter perdido."
A partir daquele dia, Rafael se tornou mentor de Clara, ajudando-a
a explorar novas melodias e composições. Juntos, eles viajaram para vilas
vizinhas, contando sua história através da música e inspirando outros a
acreditarem no poder transformador da arte.
E assim, o violão mudo encontrou novamente sua voz, não apenas
através de suas cordas, mas através do amor e da persistência de Clara.
Ele provou que, às vezes, tudo o que precisamos é de alguém que
acredite em nós para voltarmos a cantar nossas melodias.
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